Destaques do Cinema: Da Tensão Erótica ao Drama Indie Autoral

A indústria cinematográfica prepara-se para agitar o público com duas produções que, embora radicalmente opostas em tom e estilo, prometem dar o que falar. Enquanto uma aposta na fórmula consagrada do romance erótico para atrair legiões de fãs literários, a outra traz uma colaboração inusitada que subverte as expectativas do gênero de comédia dramática.

A nova aposta para suceder 50 Tons de Cinza

Para quem sentia falta de uma saga picante nas telonas, a espera está perto do fim com a chegada de um dos filmes eróticos mais aguardados do ano. Baseado em uma série de livros best-sellers, a trama promete rivalizar diretamente com o fenômeno 50 Tons de Cinza. A história gira em torno de Eric Zimmerman, que viaja à Espanha após a morte do pai para supervisionar a filial da empresa Muller. É no escritório em Madrid que ele conhece Judith Flores, uma jovem secretária que desperta nele uma atração imediata e avassaladora.

No entanto, a narrativa foge do romance convencional logo de cara. Eric é um homem que frequenta clubes de swing e introduz Judith a esse universo de jogos sexuais. O que começa como uma mera aventura carnal, onde a jovem aceita participar das fantasias do rapaz, logo evolui para algo muito mais complexo e sentimental. Sob a direção de Lucía Alemany, o filme é apenas a ponta do iceberg de uma franquia robusta. A série literária original inclui títulos como “Peça-me o que quiser, agora e sempre”, “Peça-me o que quiser ou deixe-me” e “Peça-me o que quiser e eu te darei”. O universo ainda se expande com os spin-offs “Surpreenda-me” e “Passe a Noite Comigo”, além da perspectiva do próprio protagonista nos romances “Eu Sou Eric Zimmerman”.

A arte encontra o coração no Texas

Mudando completamente de registro, o filme Chasing Summer surge como uma obra que pode cimentar de vez o status de Josephine Decker como uma “autora” no sentido mais clássico da palavra. Diferente de diretores que imprimem uma marca estética óbvia e repetitiva, Decker espalha suas digitais artísticas de forma sutil em um projeto que não nasceu de sua própria mente. Aqui, ela aplica sua visão à história de amadurecimento tardio escrita e protagonizada pela comediante Iliza Shlesinger. O resultado dessa colaboração é fascinante: a assinatura de Decker acentua a essência das ideias de Shlesinger sem ofuscar a voz da roteirista, transformando o que poderia ser uma trama formulaica em algo com uma carga inesperada.

Shlesinger canaliza memórias próprias de seu crescimento nos subúrbios de Dallas para encapsular a crise da meia-idade da geração millennial. Ela vive Jamie, uma profissional hipercompetente da área de ajuda humanitária que vê sua vida desmoronar ao perder, simultaneamente, o emprego e o namorado. Sem muitas opções, ela retorna às suas raízes texanas para se recompor, o que implica voltar a morar com a mãe cheia de opiniões, interpretada por Megan Mullaly, e trabalhar para a irmã, vivida por Cassidy Freeman, em uma pista de patinação decadente.

Embora a premissa soe como o início de um filme barato de TV a cabo onde a “mulher de carreira” aprende o valor da vida simples, a postura desafiadora de Shlesinger impede que Chasing Summer caia em clichês. A narrativa oscila conforme a personalidade da protagonista: em um momento Jamie posa de mentora madura para uma colega jovem adulta, interpretada por Lola Tung, e no seguinte gagueja insegura diante de rivais do ensino médio.

Linguagem visual e química em cena

Em vez de apenas filmar essas cenas com clareza narrativa padrão, Decker e o diretor de fotografia Eric Branco subvertem a gramática visual do gênero. O filme abandona aquela iluminação brilhante e chapada típica das comédias de streaming atuais. Desde a longa tomada inicial focada na personagem, nota-se a intenção de capturar as cores e temperaturas reais de um verão sulista. O sol penetrante oprime os personagens durante o dia, mas cede lugar às sombras do crepúsculo, oferecendo a Jamie um refúgio visual para suas inseguranças.

É nesse cenário, numa festa noturna, que Jamie encontra Colby, um rapaz mais de uma década mais jovem. Garrett Wareing, que dá vida ao interesse amoroso, é um achado para o filme. Com um charme de galã clássico misturado a uma sinceridade desarmante, ele protagoniza com Shlesinger cenas de sexo que carregam uma eletricidade palpável, justamente porque a direção de Decker está atenta à sensualidade da linguagem corporal. A diferença de idade nunca é tratada com menosprezo, e a entrada de Colby na trama altera a linguagem visual do filme, capturando a reconexão da protagonista com a alegria pura.

Apesar da química, o filme não ignora a bagagem emocional de Jamie, especialmente em relação ao seu ex-namorado Chase. O papel conta com a escalação genial de Tom Welling, um ícone dos anos 2000, cuja presença assombra a protagonista como uma versão “sem dentes” do filme Jovens Adultos. Embora o roteiro de Shlesinger pudesse se beneficiar de uma simplificação nas intrincadas fofocas locais, o filme conquista o espectador. O clímax é barulhento e joga com os pontos fortes de Shlesinger como humorista, arrancando grandes risadas. E, num toque final de sofisticação, a diretora conduz a cena ao som de “He Really Needs Me”, de Jon Brion — uma piscadela para os fãs de Embriagado de Amor — encerrando a obra de forma abrupta, porém memorável, logo após seu ponto alto.