Da extravagância nostálgica ao minimalismo nórdico: um panorama da moda através das décadas

A moda é cíclica e vive de revisitar o passado enquanto projeta o futuro. Se por um lado temos a memória afetiva vibrante das décadas de 80 e 90, marcadas por ousadia e experimentação, por outro, observamos a consolidação de novas capitais fashion que ditam o comportamento contemporâneo, como Copenhague. Analisar esses dois momentos distintos nos permite entender como o vestuário evoluiu de uma ferramenta de autoexpressão barulhenta para uma indústria sofisticada focada em comunidade e novos talentos.

O legado destemido dos anos 80 e 90

As gerações que viveram o auge do final do século XX não tinham medo de errar. A década de 80, em particular, foi um período de conquista para as mulheres no mercado de trabalho. O blazer de corte quadrado e ombreiras pesadas surgiu quase como uma armadura, permitindo que as executivas se igualassem visualmente aos homens. Curiosamente, a peça transcendeu os escritórios e invadiu o guarda-roupa casual, sendo combinada com shorts e camisetas, um estilo imortalizado por Demi Moore. Simultaneamente, a cintura alta era lei entre as jovens, que rejeitavam modelos baixos em favor de combinações com regatas e camisetas coloridas.

A influência da cultura pop e do esporte era inegável. Enquanto Madonna inspirava um visual descolado composto por shorts curtos, meias aparentes e muita atitude, o basquete americano, impulsionado pela ascensão de Magic Johnson, fazia com que camisetas largas de times como o Los Angeles Lakers fossem onipresentes. Havia também espaço para tendências peculiares, cuja origem exata é difícil de rastrear, como a febre das botas e sandálias de plástico coloridas, ou as calças fuseau, inspiradas no esqui, que traziam uma tira elástica presa ao pé.

No Brasil, a teledramaturgia ditava o consumo. A bolsa de franjas usada por Glória Pires na novela Água Viva tornou-se um item obrigatório. O guarda-roupa era um festival de cores e texturas: coletes sobrepostos, mangas morcego que desafiavam a anatomia, e o indefectível animal print, onde estampas de onça e zebra cobriam desde roupas íntimas até vestidos de gala. Havia ainda o status social atrelado a peças importadas, como o cobiçado moletom do Hard Rock Café, troféu de quem viajava ao exterior. As calças coloridas, herança punk que o grupo Menudo popularizou (e que a banda Restart ressuscitaria anos depois), e as leggings usadas exaustivamente fora das academias, completavam esse cenário de liberdade estética.

O frio e a renovação na Semana de Moda de Copenhague

Avançando para o cenário atual, a indústria volta seus olhos para o norte da Europa. A Copenhagen Fashion Week (CPHFW) celebra seu vigésimo aniversário em 2026, consolidando-se como um polo de criatividade, apesar das condições climáticas adversas. A temporada de Outono/Inverno 2026 foi marcada por uma onda de frio intenso, com neve espessa e sensação térmica de -10°C. No entanto, nem o clima gélido impediu que o público e os profissionais do setor prestigiassem os 21 desfiles e os inúmeros eventos que culminaram em um grande jantar comemorativo.

Com um calendário mais compacto, realizado entre 27 e 30 de janeiro, a semana de moda dinamarquesa competiu por atenção digital com a Alta Costura de Paris. O diferencial de Copenhague, contudo, reside não na presença massiva de celebridades, mas na valorização de talentos emergentes, senso de comunidade e artesanato. Com grandes nomes locais como Ganni e Cecilie Bahnsen migrando suas apresentações para Paris em busca de expansão, o evento dinamarquês reafirmou seu papel como um trampolim para novas vozes. Marcas estabelecidas deram lugar a destaques como Nicklas Skovgaard e Anne Sofie Madsen, esta última entregando uma apresentação descrita como explosiva e enérgica.

Destaques nas passarelas e nos bastidores

O retorno da Holzweiler ao calendário oficial foi um dos momentos mais celebrados. Após passagens por Londres e uma pausa estratégica, a marca voltou às origens, reforçando a importância da colaboração e das parcerias em tempos desafiadores. Segundo a designer Maria Skappel Holzweiler, desfilar em Copenhague traz uma sensação de proximidade e pessoalidade que outras capitais não oferecem. Outro ponto alto foi a sueca Rave Review, que, após temporadas em Milão, encontrou na Dinamarca o palco ideal para o que a crítica considerou o melhor desfile de sua trajetória, realizado na embaixada da Suécia com apoio diplomático.

Mesmo fora das passarelas, a agitação foi constante. As marcas que optaram por não desfilar encontraram maneiras criativas de engajar o público. A Ganni promoveu um café da manhã para celebrar uma colaboração com a Disney, enquanto a Tekla organizou uma visita a uma casa de banho, reforçando o lifestyle nórdico. A OpéraSport, por sua vez, destacou como a plataforma de Copenhague permite um crescimento sustentável, conectando marcas locais à imprensa e compradores internacionais sem comprometer a identidade original. Assim, entre a nostalgia das décadas passadas e a inovação do presente, a moda segue se reinventando, provando que, seja com polainas coloridas ou alfaiataria escandinava, o vestuário continua sendo o reflexo mais fiel de seu tempo.