Do Equilíbrio Cromático à Sensualidade Sombria: O Mapa da Moda para 2025 e 2026

O calendário da moda opera em um fuso horário próprio, sempre antecipando os desejos coletivos antes mesmo que eles se manifestem nas vitrines. Enquanto o público ainda se adapta ao clima atual, especialistas e diretores criativos já desenham o panorama visual para as próximas temporadas de outono-inverno, traçando um caminho que oscila entre a necessidade de conforto emocional e uma estética noturna, carregada de mistério e sensualidade. As previsões globais da WGSN e da Coloro apontam para cinco tonalidades principais que prometem dominar o cenário até 2026: Intense Rust, Midnight Plum, Sustained Grey, Cool Matcha e Apricot Crush. Essa cartela não é aleatória; ela reflete um consumidor cauteloso, em busca de estabilidade, mas que flerta intensamente com o escapismo.

A Psicologia das Cores para as Próximas Estações

Segundo Clare ‘Smith, estrategista de cores da WGSN, a seleção cromática para o ciclo 25/26 responde diretamente à turbulência global. Há uma demanda clara por tons que ofereçam segurança, contrastando com cores que evocam bem-estar e natureza. O destaque vibrante fica por conta do Apricot Crush, um tom alaranjado que remete à saúde e antioxidantes, funcionando como uma injeção de esperança e positividade em tempos incertos. Já para quem busca sobriedade, o Intense Rust surge como um marrom atemporal. Ele evoca a terra e o solo, equilibrando o luxo com uma textura rústica que comunica autenticidade e o retorno ao design clássico.

Em contraponto às cores quentes, a busca por saúde mental traz o Cool Matcha e o Sustained Grey. O primeiro é um verde pastel com propriedades terapêuticas, ideal para acalmar a ansiedade contemporânea, unindo o vegetal ao digital. O segundo, um cinza utilitário, reforça a importância dos neutros, promovendo equilíbrio e desaceleração. No entanto, é no Midnight Plum, um tom de roxo escuro próximo ao preto, que encontramos a ponte para as tendências mais ousadas das passarelas internacionais. Essa cor conecta-se à exploração espacial e ao metaverso, celebrando a escuridão e sentimentos góticos que alinham o desejo do consumidor por realidades alternativas.

A Estética Sombria e Sensual no Vestuário Masculino

É justamente nessa atmosfera de escuridão e mistério que a moda masculina encontra seu novo ápice, especialmente sob a batuta de Anthony Vaccarello na Saint Laurent. Se as cores de tendência sugerem um flerte com o gótico, a passarela de outono 2026 da grife francesa mergulha de cabeça nessa narrativa. O guarda-roupa masculino está se reconfigurando com uma sensualidade obscura, afastando-se da suavidade dos últimos anos. As ombreiras estão recuperando volume, os trench coats substituem as jaquetas técnicas e o couro domina as ruas com uma intensidade quase cinematográfica.

No desfile realizado na Bourse de Commerce, em Paris, Vaccarello apresentou uma coleção que encerrou a temporada de moda com solenidade. As cores eram profundas e sérias, um reflexo deliberado do estado do mundo. O estilista explicou que, diante dos acontecimentos globais, não queria fingir que tudo estava radiante; a escuridão foi sua musa. Na passarela, isso se traduziu em ternos dramáticos, angulares e com a silhueta clássica da marca: ombros largos pairando sobre cinturas marcadas e calças longas. O toque de tensão veio inspirado na literatura, especificamente na obra O Quarto de Giovanni, de James Baldwin, misturando a rigidez da alfaiataria com lenços de seda, suéteres justos e pijamas, explorando a dualidade entre masculinidade e sexualidade.

Inovação e Provocação nos Detalhes

A ousadia de Vaccarello não se limitou ao corte das roupas, mas estendeu-se aos acessórios que definem o tom da temporada. Se no passado as botas de cano altíssimo causaram furor, a aposta agora eleva o nível de provocação. O designer introduziu o que pareciam ser leggings de látex líquido, mas que, na verdade, eram peças de verniz conectadas diretamente a sapatos mule pretos brilhantes. O visual remete a uma estética fetichista, quase industrial, mas inserida no contexto de luxo da alta moda.

Essa abordagem confirma que o designer sabe exatamente como dominar a conversa cultural. Além das roupas, sua conexão com o cinema — evidenciada pela presença de ícones como Gaspar Noé e Beatrice Dalle no desfile — reforça a narrativa de que a Saint Laurent não vende apenas roupas, mas um estilo de vida cinematográfico e rebelde. Vaccarello entende que, no fim das contas, a influência da marca reside na criação de um desejo visceral: os homens querem vestir essa nova armadura sensual, e o público quer estar perto de quem a veste. Seja através da estabilidade das cores terrosas ou da provocação do verniz preto, a moda dos próximos anos promete não passar despercebida.